terça-feira, 11 de dezembro de 2012

João e o pôr do sol



João, apenas João. Era daquelas pessoas que nunca se olhava no espelho. Não porque não queria ver suas imperfeições, e sim porque não suportava olhar para si mesmo. Ele era daqueles caras que dia estava bem e outro dia estava de mal humor. Convivia com poucas pessoas. Na verdade não convivia com ninguém, a não ser seu cachorro.
Certo dia decidiu levantar-se de sua poltrona velha, tirar seu pijama rasgado. Foi quando passou em frente ao espelho, e pela primeira vez em muitos anos, se olhou nele. Sua autoestima, que já estava lá em baixo, finalmente tocou no chão.
Colocou sua camisa xadrez, uma calça velha que achara no fundo de seu guarda-roupa, e um chinelo. Nunca ligou para moda, e não era hoje que se vestiria bem.
Desceu pelo elevador, tentando não encarar os espelhos que o rodeavam. Saiu sem olhar para os lados, pois odiava os moradores do seu prédio. Finalmente viu o sol, e como ele estava lindo! Até parecia que estava brilhando especialmente para João. Continuou a andar.
Em seu caminho pode ver um imenso transito, pessoas brigando, ouvindo musicas sem fone de ouvido - musicas horríveis por sinal -, falando alto, enfim, tudo que lhe deixaria mais estressado ainda. Decidiu então voltar para casa.
Por ter andado bastante, o caminho de volta foi mais longo do que esperava. 1 hora depois chegou em casa. Tirou sua roupa e colocou seu bom e velho pijama. Foi para sala e de sua poltrona olhou pela janela o sol indo embora.
"É, Max. A vida lá fora não é nada legal. As pessoas não são nada legais. E a cidade? Que lugar horrivel! Poluição tanto sonora quanto visual. Não, isso não me agrada nem um pouco. Qual é a graça em viver num lugar assim? Ainda não vi nenhum motivo para continuar saindo dessa casa... digo, vi sim um motivo, mas não, não quero sair de casa por esse motivo. Sabe por quê? Porque eu posso vê-lo por aquela janela, e desse jeito não preciso encarar todas aquelas pessoas que me dão medo.". Disse João, fazendo carinho em seu cachorro, e levantando-se para ver o sol se pôr.

João Euclides e o capeta



João Euclides nunca gostou do seu nome. Não sabia se era melhor se chamado de Euclides ou de João. Optou em ser chamado de João, pois era o menos feio. João era evangélico, mas não porque escolheu seguir essa religião. Sentia-se meio que obrigado á frequentar a igreja, alias, todos os seus familiares eram evangélicos.

João adorava tatuagens e piercings, mas não tinha nenhum. Sempre que ouvia alguém falar "tatuagens são do capeta", logo concordava.
Sempre que ouvia rock tocando no rádio, João logo se animava, mas quando alguém dizia “rock é do capeta”, logo abaixava a cabeça e concordava.
João tinha tendências homossexuais, mas sempre que falavam "homossexualidade é coisa do capeta", logo concordava.

João, na sua ida da adolescência para a fase adulta fugiu de casa. Conheceu pessoas novas, largou sua religião. Fez tatuagens, foi nos shows de suas bandas de rock e encontrou um namorado.
João morreu cedo, mas deixou uma carta digitada com letras garrafais para sua família. Nesta carta estava escrito "TUDO QUE FIZ OU VIVI, SEGUNDO VOCÊS, FOI DO CAPETA, MAS GRAÇAS A ESSAS COISAS EU VIVI FELIZ. O CAPETA É LEGAL E TEM BOM GOSTO!". Seus familiares, lendo a carta, conseguiam ouvir no fundo de suas almas João gritando essas palavras. Logo em seguida foram orar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

João Marcos e seu café sagrado



Sentando em uma cadeira ou outra, assim era a vida de João Marcos.
Toda manhã acordava cedo e ia à lanchonete mais próxima beber seu sagrado café. O Tomava calmamente enquanto olhava pela janela aquelas pessoas correndo contra o tempo, buscando chegar em seus trabalhos no horário certo. Tanta correria não servia para nada.
Via Maria, que trabalhava para alimentar seu vicio em sapatos. Via Carlos, que corria em grandes passos acelerados para chegar em seu emprego de bosta para ganhar um salário de bosta que, no final, gastava com prostitutas e bebidas. Via também Fernando, que trabalhava para sustentar duas ou três famílias.

João observava essas pessoas enquanto engolia a ultima gota que restava em seu copo de café, e corria também no meio de toda aquela gente apressada. Mal ele sabia que estava dando largos passos, correndo contra o tempo.
Ah, seu salário era gasto com games de tiro, filmes de luta e alimentos e mimos para seu gatinho, o Nick.